Quando chegava o domingo, todo domingo, Celinha acordava cedo e ia pra fila. Levava uma sacolinha com o almoço, que aquele lanchinho do programa não dava pra nada. Os filhos não reclamavam, porque gostavam mesmo de poder, vez ou outra, ver a mãe na TV. O marido, ela não sabia por onde andava. Melhor. Pra que marido? O dela, pelo menos, não tinha servido pra nada. Tinha os dois meninos, claro, que não podia ter feito sem o sacripanta, mas fora isso...
As outras também tinham histórias. Um que estava preso, o outro que tinha morrido, o outro que era bêbado, o outro que tinha amante, o outro viciado em bilhar e mais uma infinidade de maridos. Nenhum capaz de rivalizar com o seu Silvio. Aquele, sim, o marido sonhado. Elegante, animado, carinhoso, rico e com o dom de fazer rir. Ah, o seu Silvio!
Celinha não escondia de ninguém. Sentava bem na frente, olhava pra ele de pertinho, com olhar de cobiça e sedução. O seu Silvio dizia: “Minhas colegas de trabalho.” Coisa impessoal, que soava como declaração de amor. Já tinha pegado na mão dele e tinha até dado beijo no rosto. Ele sabia o nome dela, e isso era tudo. Algumas diziam que aquilo era um sonho doido, outras, que sim, que tudo é possível neste mundo, que não que ele fosse casar com ela, mas isso ela nem queria, que ela não era uma louca sonhadora, mas que ele podia chamá-la um dia pra ir ao camarim, podia sim, por que não? E ela ia falar o que pra ele? Ela não tinha estudo, era pobre, nem era bonita, mas tinha muito a dizer, sim, senhora.
Lá dentro, o mundo perdia a forma, não existia. Ele perguntava: “Quem quer dinheiro?” E ela esperneava, gritava, pulava, se atirava sobre as outras e quase tinha um ataque do coração quando ele a chamava pra responder sei lá a que pergunta. Ela ia arfando pro lado dele e errava sempre. Perdia o dinheiro. Voltava pro lugar pulando e sorrindo, com a certeza de que iria ao camarim. Eles iam conversar. Ele ia contar pra ela tudo que já tinha passado na vida, ia dizer como se sentia, o que pensava, com o que sonhava. Ela ia ouvir com o ouvido mais atento deste mundo e ia ficar muda, porque ela, talvez, não tivesse mesmo nada a dizer. Mas no outro domingo ela teria. Teria, sim, senhora.

Nenhum comentário:
Postar um comentário