— Se você quisesse, eu falava com a Delurdes. Ela, quando o marido arranjou amante, botou ele na cama por duas semanas. O homem ficou que parecia um pudim. Ela lá, cuidando dele, dando mingau, chazinho, sopa de miúdo. Tudo conforme o guia mandava. Quando ele levantou era outro. É até um enjoo ver aquele homem. Parece um carrapato grudado nela.
— Deus que me perdoe.
— Eu também tenho medo, mas é um recurso. Deus há de entender. Se tem o recurso, pra que a gente vai descuidar? Daqui uns dias, você acorda e não encontra nem pé de meia do teu marido em casa. Se você quiser, eu falo com a Delurdes.
— Deus que me perdoe. Prefiro perder o Inácio.
— Nem fala uma coisa dessa. Perder o marido nessa idade! Sou tua amiga, mulher. Tô querendo abrir teu olho. Lembra da Cleonice? Tá até hoje deprimida. Diz que não sai de casa, e tem dia que nem levanta da cama. Ficou se fazendo de desentendida, deu no que deu. Tô te dizendo porque sou tua amiga. Abre teu olho enquanto ainda dá tempo.
Dora passou a noite acordada esperando o marido. Ele chegou de manhã, entrou em casa querendo se fazer de gato. Quando deu de cara com a mulher, achou de pedir desculpa e contar a história mais deslavada. Dora se fez de sonsa, ganhou beijo na testa e fez café pra ele. Ficou um tempo olhando Inácio dormindo no sofá. Foi se enchendo de uma raiva, foi adivinhando a outra fingindo sono com a cabeça deitada no peito dele, pedindo pra ele ficar. Foi cozinhando uma vontade de matar aquela vaca. Abriu o portãozinho que separava o seu quintal do da vizinha de corredor, bateu na porta da amiga e foi falar com a Delurdes.
— Tem que ir de dia de sábado. É lá em Pirituba. Sabe onde é? Se quiser, eu vou junto. Começa umas oito da noite, mas tem que chegar umas cinco pra pegar senha. Já leva uma calcinha, mas tem que ser usada, sem lavar. Se for vermelha, melhor. Leva também uma cueca do teu marido, não precisa ele ter usado, mas tem que ser branca. Vai precisar também levar uns presentes pra Maria Padilha. Ela gosta de perfume, de cigarro, de bebida doce, mas tem que ser coisa boa. E se prepara pra sair de lá só depois da meia-noite.
Inácio acordou estranho. Uma dor no corpo, uma leseira. Não quis sair. Pediu um remédio pra mulher. Estava com o estômago enjoado. Dora abriu a garrafa que a pomba-gira tinha dado pra ela, botou num copo um pouco do líquido cor de terra, pingou mel e deu pro marido beber. Ele vomitou até as tripas. Vomitou o desejo pela outra, vomitou a vontade de sair de casa, vomitou a euforia que sentia quando trepava com a amante, vomitou um sonho que andava acalentando. Na segunda-feira, acordou, grudou feito carrapato na pele de Dora e nunca mais olhou pra outra mulher.

Nenhum comentário:
Postar um comentário