quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Foi assim

Ela não queria admitir, mas estava carente. Repetia pra si, e pra quem estivesse por ali, que viver sozinha era uma beleza. Podia-se, por exemplo, empilhar os livros no chão do quarto e separá-los por cor, por nome, por tamanho, por predileção. Podia-se até empilhar pra vender na internet. Coisa complicada de se fazer, mas pra que servia, afinal, não ter ninguém a quem explicar o que fosse?
Era verdade, ela não estava infeliz. Não totalmente. Otimista que era, dava um jeito de se sentir, até mesmo, feliz.
Não se sabe por quê — se pelo destino, se pelo acaso, se pelo mistério insondável dos ufos, se pelas mãos da Virgem Maria —, ela, que estava tão bem sozinha ou quase ficando tão bem sozinha, perdeu o que era sossego terno e doce desassossego. E tudo virou som e fúria.

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