segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Um começo

Não sei se começo bem, porque se me vem o desejo de dar vida ao que julgo serem minhas impressões sobre tudo o mais, sofro a angústia de não poder fazê-lo a contento etc. Seria bom pra mim que tudo o mais que percebo fosse entendido de uma maneira, quem sabe?, telepática; uns pontos de luz que tornassem, absolutamente, tudo compreendido. Mas a incapacidade de adormecer me obriga a — eu diria tomar da pena se me permitissem, mas já antevejo um sério entortar de narizes diante do meu anacronismo pretensioso. Seria bonito tomar da pena, mas devo contentar-me a apertar os botões do meu teclado, ou se quiser ser poética, inventar que escrevo a lápis em cadernos brochura de capa vermelha. Já me culparão por essa digressão que em nada contribui para a ação. Devo seguir o exemplo dos mestres e iniciar o mais logo.
Começo porque não posso dormir.
Mas é bom que fique dito que não haverá ação; pois só me interessa a observação. Têm, por isso, aqueles que se puserem diante de mim, o direito de se retirarem pela falta de interesse.
Tive certa vez a ilusão de que tudo já havia sido dito. Isso me poupou durante anos da aflição de querer dizer o que quer que fosse, mas agora ando com insônia. Escrevo em pensamento páginas e páginas em que minhas impressões ficam registradas no segundo em que se produzem. Sei que são tão boas! Nunca consigo revê-las, apagam-se no mesmo momento em que se escrevem. Se agora sento aqui diante deste teclado, pena na mão, é porque queria que fosse possível registrar ao menos uma só linha daquelas que andei escrevendo no escuro. Já houve vários começos. Podia escolher um qualquer, mas nenhum se dispõe a ser solícito comigo.
Bela viola diria uma minha avó, que tratava tudo com desprezo e sábio conformismo. Bela viola. Já morta, olhei pra ela em seu caixãozinho, contei quatrocentas e treze rosas vermelhas, que decoravam seu defunto, e pensei: bela viola. Depois, quando meu pai era ele no caixão, contei os cravos escolhidos por minha mãe, porque ele amava tanto os cravos! Seiscentos e noventa. Nunca soube que meu pai amasse os cravos, mas achei muito comovente ela falar de amor e de cravos. E naquele dia, minha alma perplexa escreveu uma ou duas páginas de um livro, enquanto minhas tias choravam, mais ou menos, diante do irmão mais novo morto sabe-se lá por que desígnios. Os de Deus me diziam aqueles que me achavam necessitada de consolo. Ele sabe o que faz.
Não é seguro pra mim que eu comece agora a falar sobre Deus. Mais tarde, talvez; mas logo assim de cara, corro o risco de afastar tão cedo os que se ofendem se Deus não é tratado com reverência. Paro por aqui. Minha avó que era crente e muito precavida lembrava-se sempre de manter um olho na graça divina e outro na sardinha.

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