sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Menina

Quando ela era muito jovem, via muitos defeitos no espelho. Hoje, quando olha as fotos, pensa: quem é aquela menina tão linda?

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Calor

No meio-dia causticante do verão paulistano, ela cozinhava no carro.
Cozinhar dentro de um carro era coisa que dava nojo. E depois ninguém morre de calor. A mãe sempre lhe dizia que ninguém morre de amor; de calor é que era mais difícil morrer. Mas ela podia morrer agora mesmo de amor e de calor.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Só pra ela

Quando chegava o domingo, todo domingo, Celinha acordava cedo e ia pra fila. Levava uma sacolinha com o almoço, que aquele lanchinho do programa não dava pra nada. Os filhos não reclamavam, porque gostavam mesmo de poder, vez ou outra, ver a mãe na TV. O marido, ela não sabia por onde andava. Melhor. Pra que marido? O dela, pelo menos, não tinha servido pra nada. Tinha os dois meninos, claro, que não podia ter feito sem o sacripanta, mas fora isso...
As outras também tinham histórias. Um que estava preso, o outro que tinha morrido, o outro que era bêbado, o outro que tinha amante, o outro viciado em bilhar e mais uma infinidade de maridos. Nenhum capaz de rivalizar com o seu Silvio. Aquele, sim, o marido sonhado. Elegante, animado, carinhoso, rico e com o dom de fazer rir. Ah, o seu Silvio!
Celinha não escondia de ninguém. Sentava bem na frente, olhava pra ele de pertinho, com olhar de cobiça e sedução. O seu Silvio dizia: “Minhas colegas de trabalho.” Coisa impessoal, que soava como declaração de amor. Já tinha pegado na mão dele e tinha até dado beijo no rosto. Ele sabia o nome dela, e isso era tudo. Algumas diziam que aquilo era um sonho doido, outras, que sim, que tudo é possível neste mundo, que não que ele fosse casar com ela, mas isso ela nem queria, que ela não era uma louca sonhadora, mas que ele podia chamá-la um dia pra ir ao camarim, podia sim, por que não? E ela ia falar o que pra ele? Ela não tinha estudo, era pobre, nem era bonita, mas tinha muito a dizer, sim, senhora.
Lá dentro, o mundo perdia a forma, não existia. Ele perguntava: “Quem quer dinheiro?” E ela esperneava, gritava, pulava, se atirava sobre as outras e quase tinha um ataque do coração quando ele a chamava pra responder sei lá a que pergunta. Ela ia arfando pro lado dele e errava sempre. Perdia o dinheiro. Voltava pro lugar pulando e sorrindo, com a certeza de que iria ao camarim. Eles iam conversar. Ele ia contar pra ela tudo que já tinha passado na vida, ia dizer como se sentia, o que pensava, com o que sonhava. Ela ia ouvir com o ouvido mais atento deste mundo e ia ficar muda, porque ela, talvez, não tivesse mesmo nada a dizer. Mas no outro domingo ela teria. Teria, sim, senhora. 

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Deus que me perdoe

— Se você quisesse, eu falava com a Delurdes. Ela, quando o marido arranjou amante, botou ele na cama por duas semanas. O homem ficou que parecia um pudim. Ela lá, cuidando dele, dando mingau, chazinho, sopa de miúdo. Tudo conforme o guia mandava. Quando ele levantou era outro. É até um enjoo ver aquele homem. Parece um carrapato grudado nela.
— Deus que me perdoe.
— Eu também tenho medo, mas é um recurso. Deus há de entender. Se tem o recurso, pra que a gente vai descuidar? Daqui uns dias, você acorda e não encontra nem pé de meia do teu marido em casa.  Se você quiser, eu falo com a Delurdes.
— Deus que me perdoe. Prefiro perder o Inácio.
— Nem fala uma coisa dessa. Perder o marido nessa idade! Sou tua amiga, mulher. Tô querendo abrir teu olho. Lembra da Cleonice? Tá até hoje deprimida. Diz que não sai de casa, e tem dia que nem levanta da cama. Ficou se fazendo de desentendida, deu no que deu. Tô te dizendo porque sou tua amiga. Abre teu olho enquanto ainda dá tempo.
Dora passou a noite acordada esperando o marido. Ele chegou de manhã, entrou em casa querendo se fazer de gato. Quando deu de cara com a mulher, achou de pedir desculpa e contar a história mais deslavada. Dora se fez de sonsa, ganhou beijo na testa e fez café pra ele. Ficou um tempo olhando Inácio dormindo no sofá. Foi se enchendo de uma raiva, foi adivinhando a outra fingindo sono com a cabeça deitada no peito dele, pedindo pra ele ficar. Foi cozinhando uma vontade de matar aquela vaca. Abriu o portãozinho que separava o seu quintal do da vizinha de corredor, bateu na porta da amiga e foi falar com a Delurdes.
— Tem que ir de dia de sábado. É lá em Pirituba. Sabe onde é? Se quiser, eu vou junto. Começa umas oito da noite, mas tem que chegar umas cinco pra pegar senha. Já leva uma calcinha, mas tem que ser usada, sem lavar. Se for vermelha, melhor. Leva também uma cueca do teu marido, não precisa ele ter usado, mas tem que ser branca. Vai precisar também levar uns presentes pra Maria Padilha. Ela gosta de perfume, de cigarro, de bebida doce, mas tem que ser coisa boa. E se prepara pra sair de lá só depois da meia-noite.
Inácio acordou estranho. Uma dor no corpo, uma leseira. Não quis sair. Pediu um remédio pra mulher. Estava com o estômago enjoado. Dora abriu a garrafa que a pomba-gira tinha dado pra ela, botou num copo um pouco do líquido cor de terra, pingou mel e deu pro marido beber. Ele vomitou até as tripas. Vomitou o desejo pela outra, vomitou a vontade de sair de casa, vomitou a euforia que sentia quando trepava com a amante, vomitou um sonho que andava acalentando. Na segunda-feira, acordou, grudou feito carrapato na pele de Dora e nunca mais olhou pra outra mulher.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Curta


Ela estava desabrochando.
Uma mulher e sua música mexicana, seu cigarro, seu café.
A poesia não precisa mais de suicidas.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Quentinha

Ela abriu o olho de manhã. A cama estava uma delícia. Quente. Quente como o quê? Ela tinha perguntado o que ele queria dizer quando falava “você é tão quentinha”. Quentinha como? Não são todas as xoxotas quentinhas? Não eram. Umas eram como um grande vácuo onde o pau se perdia. Ela riu se sentindo superior por ser tão quentinha e ter uma xoxota acolhedora. Ficou lá pensando nas mulheres que conhecia. 

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Foi assim

Ela não queria admitir, mas estava carente. Repetia pra si, e pra quem estivesse por ali, que viver sozinha era uma beleza. Podia-se, por exemplo, empilhar os livros no chão do quarto e separá-los por cor, por nome, por tamanho, por predileção. Podia-se até empilhar pra vender na internet. Coisa complicada de se fazer, mas pra que servia, afinal, não ter ninguém a quem explicar o que fosse?
Era verdade, ela não estava infeliz. Não totalmente. Otimista que era, dava um jeito de se sentir, até mesmo, feliz.
Não se sabe por quê — se pelo destino, se pelo acaso, se pelo mistério insondável dos ufos, se pelas mãos da Virgem Maria —, ela, que estava tão bem sozinha ou quase ficando tão bem sozinha, perdeu o que era sossego terno e doce desassossego. E tudo virou som e fúria.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Eva (2)

Eva ficou sabendo de um vidente, lá pras bandas do Capão Redondo, que era tiro e queda. Acertava tudo. Era ver pra crer. Foi ver. Queria saber do futuro, de como a sua vida ia ser maravilhosa. Queria ouvir que ia ficar rica, que ia ser feliz, que um homem, moreno ou loiro, mais velho ou mais novo, ia amá-la muito. O vidente falou do homem moreno, mais velho e rico que já a amava. Ela sabia quem podia ser? Não sabia. Ele ia se declarar muito em breve, só que tinha um impedimento: ele era casado. Mas isso também ia se resolver, ele ia se separar. O trabalho ia muito bem. Ela ia ser promovida em pouco tempo. E talvez o homem moreno fosse do seu trabalho, talvez fosse seu chefe. O seu Jaime? Talvez não. Quem podia ser esse homem? Podia ser o Duda? Ele não era mais velho, nem era rico, nem casado, mas era moreno. Um amigo antigo, que ela não via há algum tempo e por quem tinha sido apaixonada. Podia ser. Ele ia ligar pra ela antes do próximo domingo.
O Duda, quem diria. Eles tinham se divertido juntos. Não ia esperar ele ligar, não. Ela ia ligar. Ficou sabendo que o Duda tinha ido pra Califórnia com um amigo, se ia voltar, só Deus podia dizer.
Eva se sentiu enganada de novo.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Eva

O processo da criação do mundo, pelo que se pode entender do texto escrito por Moisés, não foi muito complicado. Bastou que Deus dissesse umas poucas palavras para que céus e mares e terras e tudo o mais aparecesse miraculosamente — como era de se esperar.
Embora a criação não lhe causasse desgaste físico, Deus não se dispôs a fazer tudo de uma vez só. Depois de se ocupar durante cinco dias com a natureza, dedicou-se, no sexto, à criação do homem. Diante do desafio, usou um processo diferente: esculpiu em barro uma figurinha com forma idêntica a sua e, assistido por uma imensa plateia de anjos — já sabedores do poder do chefe, mas ainda assim espantados com a proeza da criação —, soprou o boneco de barro, que imediatamente começou a se mexer e a dar nome às coisas.
Parece que o dia a dia do primeiro homem não era muito estimulante: andar daqui prali no paraíso papeando com o Pai, que lhe ensinava uma única coisa o tempo todo. Deus ficou um pouco chateado em perceber que tudo o que tinha feito não era suficiente para a felicidade do homem e, não tendo outra saída, voltou à prancheta a fim de rever o projeto. Inteligente como é, viu logo onde estava o erro. A ideia inicial sofreu, então, mudanças consideráveis. E de grandes consequências.
Não há maiores detalhes no texto, e ficamos sabendo apenas que Deus, usando uma costela de Adão, fez pra ele uma companheira, que tinha a inexplicável capacidade de fazer ela mesma, dentro de si, com uma pequena contribuição de Adão, outros iguais a ela e a ele, que no resumo eram iguais ao próprio Deus.
Depois disso, um pouco melindrado e talvez um pouco arrependido do poder que concedera à mulher, Deus inventou a serpente, dona de uma conversa muito animada e interessante. 

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Um começo

Não sei se começo bem, porque se me vem o desejo de dar vida ao que julgo serem minhas impressões sobre tudo o mais, sofro a angústia de não poder fazê-lo a contento etc. Seria bom pra mim que tudo o mais que percebo fosse entendido de uma maneira, quem sabe?, telepática; uns pontos de luz que tornassem, absolutamente, tudo compreendido. Mas a incapacidade de adormecer me obriga a — eu diria tomar da pena se me permitissem, mas já antevejo um sério entortar de narizes diante do meu anacronismo pretensioso. Seria bonito tomar da pena, mas devo contentar-me a apertar os botões do meu teclado, ou se quiser ser poética, inventar que escrevo a lápis em cadernos brochura de capa vermelha. Já me culparão por essa digressão que em nada contribui para a ação. Devo seguir o exemplo dos mestres e iniciar o mais logo.
Começo porque não posso dormir.
Mas é bom que fique dito que não haverá ação; pois só me interessa a observação. Têm, por isso, aqueles que se puserem diante de mim, o direito de se retirarem pela falta de interesse.
Tive certa vez a ilusão de que tudo já havia sido dito. Isso me poupou durante anos da aflição de querer dizer o que quer que fosse, mas agora ando com insônia. Escrevo em pensamento páginas e páginas em que minhas impressões ficam registradas no segundo em que se produzem. Sei que são tão boas! Nunca consigo revê-las, apagam-se no mesmo momento em que se escrevem. Se agora sento aqui diante deste teclado, pena na mão, é porque queria que fosse possível registrar ao menos uma só linha daquelas que andei escrevendo no escuro. Já houve vários começos. Podia escolher um qualquer, mas nenhum se dispõe a ser solícito comigo.
Bela viola diria uma minha avó, que tratava tudo com desprezo e sábio conformismo. Bela viola. Já morta, olhei pra ela em seu caixãozinho, contei quatrocentas e treze rosas vermelhas, que decoravam seu defunto, e pensei: bela viola. Depois, quando meu pai era ele no caixão, contei os cravos escolhidos por minha mãe, porque ele amava tanto os cravos! Seiscentos e noventa. Nunca soube que meu pai amasse os cravos, mas achei muito comovente ela falar de amor e de cravos. E naquele dia, minha alma perplexa escreveu uma ou duas páginas de um livro, enquanto minhas tias choravam, mais ou menos, diante do irmão mais novo morto sabe-se lá por que desígnios. Os de Deus me diziam aqueles que me achavam necessitada de consolo. Ele sabe o que faz.
Não é seguro pra mim que eu comece agora a falar sobre Deus. Mais tarde, talvez; mas logo assim de cara, corro o risco de afastar tão cedo os que se ofendem se Deus não é tratado com reverência. Paro por aqui. Minha avó que era crente e muito precavida lembrava-se sempre de manter um olho na graça divina e outro na sardinha.